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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Sou movido por impulsos. Isto estou cansado de saber.
Sou movido por Dioniso, pelo meu "daimon", pelas minhas pulsões... Creio que sou movido por tudo isso e muito mais.
Que mais?
Quiçá, uma vontade de viver mais e mais.
Aceito os desafios da vida (e da morte) dia após dia. Sou como Eros de Diotima, nasce, morre, e nasce novamente.
E por falar nisso a algum tempo venho perdendo o medo de morrer e de viver.
E desta forma, me lanço, jogo-me para frente que acredito ser algo que chamam de futuro.
Sou pobre, realmente pobre. E também não tenho riqueza interior. Sou apenas eu.
Sou aquele sujeito que faz e acontece. Que se te toca te estremece. Te afeta.
Sou movido e te faço mover.
Sou o aquele sujeito, que aonde chega tira tudo do lugar, só para depois brincar de organizar.
Sou movido pela brincadeira de viver.
E falando em viver, quando eu morrer, se preocupe, ninguém mais vai me ver me mover (fazer e acontecer, mas eu irei nascer, nascer, nascer...).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Acordando 2.0

Sou despertado bruscamente pelo toque irritante e imperativo do meu telefone celular, e finalmente quando sonambulamente o localizo e disponho-me a atender tão inconveniente chamada, aquele ou aquela que suponho, esteja do outro lado, desiste.
Ponho o telefone em algum canto qualquer. E fico deitado olhando para o alto, para o teto.
Andando pela rua ainda com muitas pessoas que indiferente a derrota do Brasil pela França, e assim findando a participação brasileira na copa do mundo de 98, com o Brasil captando um indiferente vice-campeão. As pessoas bebiam, gritavam, choravam, riam. Caminhava, caminhava em direção a algum lugar que não iria chegar e conheceria uma pessoa, que sempre habitou os meus sonhos mais secretos e que hoje reside no infinito da minha alma.
Ouço uma voz me chamando no meio daquela pequena balbúrdia. Do outro lado da rua duas ninfas sagazes estão na tentativa de chamar-me a atenção, ou de enfeitiçar-me com seus poderes ocultos e encantadores. Diante de tamanha beleza, eu “ogro” que sou, tive dificuldades de aceitar e entender que fosse comigo aquele chamado um tanto quanto traquinas.
Conversamos no intuito de nos conhecermos e de sabermos onde estaria rolando alguma boa festa. Saímos daquela calçada e ao mesmo tempo em que caminhava, eu me deslumbrava, num primeiro momento, confesso, com a beleza do seu corpo, pra mim tudo era perfeito. Depois de algumas caminhadas por aquelas ruelas, nos defrontamos com um casarão que segundo ela, haveria de ter uma ótima festa. Não havia ninguém na portaria da casa da suposta festa, mas ouvíamos o som que lá de dentro saía. Entramos nos acomodamos diante do balcão e ficamos conversando por horas a fio. Conversamos sobre tudo, acredito que não tínhamos a necessidade ou obrigatoriedade de impressionar, objetivando que um conquistasse o outro. Até porque, não visualizava a mais remota possibilidade do sapo beijar a princesa e vir a ser um príncipe, ou algo que o valha.
E foi assim sem pretensão de ter ou de desejar ter algo, mas sim aproveitar o momento com alguém, alguém que inexplicavelmente eu sentia que era importante pra mim, que foi passando o tempo, e sentia cada vez mais vontade de estar ao lado daquela semideusa, não mais pela beleza estonteante do seu corpo, mas tão só pela paz e pelo carinho que transbordava do seu ser.
Em dado momento, enaltecidos por aquele bem estar e por consideráveis doses de algum afrodisíaco benigno, lhe pedi, humildemente um abraço. Meio encabulado, muito encabulado lhe pedi, com muita esperança e vontade de recebê-lo. O recebi, o recebi com tamanha afetuosidade e calor. O mundo parou, no momento em que nossos corpos se tocaram com aquele tão simples e singelo abraço o mundo parou. O mundo recomeçou a ter um novo e único sentido pra mim. Não há e talvez não haja de haver nada igual. Um abraço tão fraternal, quanto um carinho maternal. Instintivamente, inexplicavelmente, sentimos vontade de chorar, tamanha a emoção que transbordava de nossos corpos e de nossas almas, tão pequeninas diante da imensidão do oceano de bons sentimentos que nem sequer podemos supor como e quantos são. Só imagino que sei que são.
Nos dias que se seguiram não podíamos nos separar, uma necessidade tão ímpar e singular. Primeiro não sabíamos se o que tínhamos sentindo era natural ou foi induzido por alguma substância, álcool, quiçá.
Meu dinheiro acabou e não tinha mais como ficar naquela cidade e estar ao lado dela e aproveitar o que se seguia nas festividades da cidade. Mas como assim, não iria ficar como assim (?), abandonaria aquela, cujo momento ao seu lado era repleto de significados cada vez mais relevantes para a construção ou reconstrução da minha vida? Ou do que eu entendia sobre a vida.
Então decidi conseguir algum lugar para ficar para aproveitar os dias que ainda restavam de festividades, dormir na rua? Sim, dormi. O mais importante era estar ao lado dela.
Não sei como ela conseguiu que eu ficasse hospedado no mesmo lugar que ela. Dormi num porão. Dormi ao lado dela depois de um banho, que ela mesma me deu. Como se fosse minha mãe ou minha irmã. Dormimos juntos abraçados, como se fôssemos namorados há anos, talvez fôssemos, mas não no momento atual, tivéssemos sido em algum outro momento.
Na ultima noite que estávamos juntos iria ter um show, um show que ela me disse por diversas vezes que não perderia, assim como me disse que quem iria acompanhá-la, era um grande artista plástico ou algo similar. Bom, senti primeiramente raiva de estar sendo trocado por um show, show que eu não tinha como ir pois, não tinha nem mais dinheiro para ir embora pra casa, estava com raiva, pois imaginava que naquela noite, quando ela estivesse ao lado do tal artista, e na empolgação daquele show, ela me esqueceria. E desta forma, tudo não passaria de "meros" e "comuns" momentos, propícios e notórios a juventude, na sua "cultura" de "ficar". Se eu tinha sentido profundidade em nosso relacionamento, não passava de uma ilusão da minha mente fértil e febril. Naquela noite fria de Julho, deitei-me no chão forrado com cobertores velhos e chorei logo após ela se despedir categoricamente dando a entender que eu não a veria mais. Até porque eu partiria de carona pela manhã, bem cedo. A minha raiva foi passando, e só ficou um pouco de tristeza, quando não mais que derrepente senti um afago em meu corpo, e vi a coisa mais linda da minha vida. Seus olhos marejados e sua voz trêmula me dizendo que ela não conseguia ficar nem mais uma noite longe de mim, nos beijamos e talvez pela primeira vez tivéssemos feito, o que chamam de amor...
Acordei com o celular tocando. Atendo. Digo: É engano!

domingo, 16 de agosto de 2009

Mais uma carta não lida (ou são apenas palavras que não me dizem nada)

Num primeiro momento pensei em escrever e expor o máximo possível no que acreditei ter sido possível fazer enquanto estávamos um pouco mais próximos. E ainda lamentar não ter feito você ficar motivada a desconstruir sua já vivida vida e experimentar uma nova forma de interpretar e interagir no mundo que está a sua volta (O propósito tenha surgido mediante suas manifestações de descontentamento com sua vida). Bom, suponho que devido a sua rotina e todos os hábitos que a compõem, uma exposição longa, cujo objetivo não é de expor muitas e muitas palavras e sim detalhar objetivamente uma reflexão. Porém, ciente desta rotina e de tudo mais, creio que não é prudente que assim eu o faça. Pois, irá ler rápido demais como se o mundo fosse acabar a qualquer instante e antes que isso viesse a acontecer terá respondido todos os seus “por que”, e assim terá construído mais uma vez uma interpretação superficial e lacônica de algo bem mais profundo. Este algo profundo de que falo, muito tem haver com o que citei a cima (desconstruir sua já vivida vida e experimentar uma nova forma de interpretar e interagir no mundo que está a sua volta), e isso não se restringe a uma troca de namorado, noivo, marido etc. Isso tem haver com pensar e agir de uma forma diferente no que concerne a ser realizar sendo o que se tem vontade e desejo de ser, e esta vontade e vontade de ser está intrinsecamente relacionado a liberdade, e ser livre tem que ousar sê-lo, e também aceitar seus desafios ocultos, ou não tão ocultos assim, como assumir responsabilidades. Sendo que a maior responsabilidade que se tem é consigo próprio. E não como delegar ou facultar isso a outro. Isso é nosso. É nosso direito e dever. Assumimos a responsabilidade de nos construirmos ao menos tentando ser uma pessoa mais completa a caminho da felicidade, que é construída por momentos e superação de momentos, ou não, Não assumimos nosso direito e dever de ser de nossa responsabilidade nossa jornada a caminho de algo, e assim atribuímos ao outro, ou a outros, a tarefa que é nossa. Abdicamos de nossa liberdade completa por temor, insegurança ou por ousar cremos ser capazes de transpor obstáculos. E ficamos na limitante e menos intimidante posição, posição esta que é de conforto. Pensamos, é assim que tem que ser não irá mudar. Bom, não pensar que o mundo muda a todo instante é em primeiro lugar admitir nossa imobilidade. Pois, somos parte do mundo.

A mudança real é árdua, pois muitas vezes somos direcionados por uma força invisível, Ego, etc. A retornar fazer as repetidas ações que sabemos que não irão nos permitir a sermos o que desejamos ser. Mesmo que não saibamos exatamente o que seremos. Mas sabemos o que não queremos ser, e isso já é uma boa indicação que algo precisa ser feito (ou não). Velhos hábitos ficam enraizados no nosso consciente e inconsciente, e nos separarmos deles não é uma tarefa fácil. Mas pública e notoriamente podemos ver que o que afirmo não é nenhum disparate ou um devaneio tolo. Percebemos das mais diversas formas que muitas pessoas, independente da classe social/financeira e/ou cultural continuam agindo desconstrutivamente por muito tempo. Comodismo de pensar e agir. Comodismo com relação ao passado, ausência de uma plena e substancial vivencia presente e temor do futuro.

A construção de um pensamento é uma tarefa árdua. Quando falo pensamento quero dizer um conceito, algo que é construído segundo um processo de indução, dedução, contemplação e experimentação. Que pode conter erros e acertos. Pode ser útil, válido ou não. Mas que com certeza deve ser apreendido e vivenciado em teoria e prática.

Não lamento por não ter feito você ver, sentir os aromas do mundo. Outro mundo. Não lamento e não peço desculpas, por uma decisão autoritária minha. Mas isso é porque não posso forçar obrigar o outro a fazer algo. Se sinto dor é por ainda não compreender o que é o livre arbítrio. Esta coisa que possibilita o outro a fazer ou não fazer algo.

Não sou inflexível ideologicamente, ou seja, não sou nenhum cabeça dura teimoso. Só tenho boa vontade e disposição para defender as minhas idéias. E construo os argumentos necessários para isso. O importante pra mim não que aceitem a minha idéia, mas que ao menos se permitam a compreendê-la. Creio a cada dia, que o que está ausente neste mundo, é justamente a compreensão. E existe um exercício a ser efetuado para que viemos a compreender algo ou não. Parte deste exercício nos faz debruçarmos a verificarmos as coisas que se defrontam conosco com mais atenção e com menos pressa na solução de uma determinada questão. Não quero dizer que temos de procrastinar decisões e conclusões. Mas sim, analisar o que acontece conosco de forma mais dedicada. Como se estivéssemos apreciando e degustando uma saborosa refeição. Temos que degustar a vida e sentirmos seus sabores. E não somente ingerir e depois digerir a vida.

Quando estávamos num curto momento, esperava e desejava. Que estivesse pronta a viver a sua vida construindo-se. Aprendendo a amar-se tanto quanto alguém o possa fazer. Não desejava tê-la como um objeto, um animal de estimação, mas sim conviver contigo. Sentir-te enquanto uma mulher que se constrói ao longo da vida, descobrindo-se capaz de superar seus fantasmas e sua história. Esperava e desejava estar ao lado de uma mulher que sentia vontade de escrever a sua própria história. Uma mulher que constrói seu destino ousadamente, mesmo que o medo de um futuro incerto se mostre implacável. Mas que viesse a se confortar com a construção de um presente que vale ser digno de ser vivido. E isso pouco tem haver em construir um compromisso conjugal, matrimônio etc. Isso tem haver com construir momentos sociáveis e carinhosos, fraternais. Quem ama cuida e não é necessário vigiar. Proteger não é vigiar. Proteger é auxiliar aquele quem amam sobre a dureza da nossa vida contemporânea. Uma vida repleta de competição em todos os setores. Pois algumas vezes tenho a percepção que algo me diz quando leio os jornais e revistas, quando assisto a TV, que tenho ser o mais inteligente, o mais bonito, o mais rico, o mais branco, o mais loiro etc. Proteger a quem se ama sobre estas implicações, é reforçar que beleza maior está em ter coragem de viver, de construir uma vida, mesmo depois de sucessivas derrotas, de dias repletos infortúnios. É ajudar a quem se ama não perder o caminho da luz. O caminho do bem viver.

Creio na possibilidade de experimentar um relacionamento construído na verdade das ações, sentimentos, pensamentos e sonhos. Não deve haver amarras contratuais que impossibilite o outro de tomar a decisão de caminhar sozinho. De descobrir-se ao viver a vida como ela é. Mesmo sem saber exatamente como ela é. Todavia, havemos de ter a incessante curiosidade de uma criança para descobrir o que é a vida e como ela é (para nós e para os outros).

Não acredito mais na eternidade de um amor, e sim na sua infinitude. A infinitude de um amor é algo que existe na minha ainda pueril concepção. O amor é algo que tem um inicio, meio, mas não um fim. O amor surge quando nos permitimos a realizá-lo, quando nos permitimos a vê-lo, enfim senti-lo. O fato de sermos pessoas em alguns momentos diferentes não é um empecilho para construção do amor, ele não exige conhecimento prévio do outro. O amor segundo concepção universalista de sua definição não exige concordâncias, pois ele une as discordâncias e divergências. Têm-se planos, idéias, sonhos, objetivos, metas ou se não temos nada disso, é porque somos diferentes, somos pessoas diferentes. A diferença dos seres não deve causar e motivar a exclusão e sim a união. Devemos nos amar por sermos diferentes e não somente por sermos supostamente iguais.

Comportamentos um tanto quanto incoerentes do passado, só vem à tona, quando os colocamos à exposição. Às vezes eles surgem de forma consciente, outras vezes de forma inconsciente. Tentamos controlar nossos comportamentos desagradáveis, mas quando menos os esperamos nos surpreendem. O que fazer então? Não tenho a resposta exata para a solução deste problema, mas suponho que talvez a continua mudança de hábito seja parte desta resposta. Considerando que o meio nos influência de alguma forma, que aqui não irei precisar como isso se dá empiricamente, creio que temos de nos permitir influenciarmos por outros meios de convivência que supomos serem mais salutar. Mas ressaltando que temos de ter uma digamos, determinada boa vontade para mudar de comportamento, ou seja, temos de estar receptivos a novas informações, a novas influências. Informações e influências que podem nos conduzir para outro caminho, caminho menos desconstrutivo que o presente caminho. Somos agressivos e intempestivos, temos consciência disto. Temos de saber também que, agressividade não é bom para quem agride e nem para quem é agredido. Se, somos assim ou assado, ou seja, se estamos cientes de determinadas limitações e supostas imperfeições. Suponho que temos de nos compreendermos porque somos assim e fazemos certas “coisas”, temos que tentar transformar isso em atitudes mais condizentes com o que objetivamos para um futuro melhor, para uma melhor qualidade de vida e ainda para tenhamos mais felicidade nos momentos em que vivemos. Mas compreendermos a si e aos outros, vejo que é uma tarefa que não podemos nos furtar. Não é uma simples aceitação de si mesmo e do outro. Mas uma tentativa de compreensão de si e do outro.

Tudo o que foi colocado até agora não é fácil de executar, e eu próprio falho algumas vezes em sua execução na prática. Mas quando caio sinto que é faz-se necessário que me levante novamente e retorne a fazer o que tem de ser feito. Algumas vezes a dor que sinto na queda de um comportamento que cri ter extinguido é terrível. E digo mais, sinto-me envergonhado e sem forças para recomeçar. Mas ou me rendo e continuo agindo da forma que agi por boa parte da minha vida e com isso assumo que não tenho meios de construir a minha vida sendo o que quero ser, e crio diversos e incontáveis motivos que irão justificar minha decisão em permanecer infeliz. Sim, eu consigo justificar os motivos de minha infelicidade e me isento da responsabilidade na efetivação desta forma atroz de viver. Podemos dizer (ou pensar): Eu não sou responsável pela minha infelicidade, pelos meus atos, pela minha situação, eu não!

Consigo racionalmente criar sujeitos que são responsáveis, os julgo e os penalizo como culpados. Eles são responsáveis, são culpados em não deixar que eu seja ou não seja alguém livre para viver a “minha” vida. Eu sou só a vítima: Oh! Como eu sofro, por que isso acontece comigo, eu sou uma pessoa tão boa...

Somos assim, se quisermos ser. Depende em muito de nós passarmos de predicado a sujeito. E assumirmos definitivamente sermos a primeira pessoa do singular e sermos singularmente uma pessoa, um ser único.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A MENINA E O SORVETEIRO (OU UM DIA O CÉU CAI)

A MENINA E O SORVETEIRO (OU UM DIA O CÉU CAI)

Lucinha é uma menina linda, demonstra toda a sua beleza com sua tenra idade. Mora numa bela casa no interior do estado. Seus pais lhe dão carinho e atenção. São ricos. Ela estuda numa escola pomposa escola.
Na escola ela desperta o interesse de seus coleguinhas e também dos seus professores, por sua dedicação ou beleza encantadora.
Menina de semblante angelical, mas, não ingênua, delicada e às vezes provocante.
Ela esconde um segredo dentro de um baú e o guarda atrás do armário em seu quarto.
Gosta de tomar banho de sol à tarde, coloca uma roupa leve que adorna muito bem o seu corpo jovial e até mesmo exuberante para alguns. Põe se a correr e a brincar no vasto jardim de sua casa.
Toda a tarde passa um sorveteiro em sua rua, ele é um senhor bem velhinho. A sua beleza, é para ele adorável, é como se estivesse em frente a uma santa virginal. Ele gosta muito dela, e às vezes fica tão contente com sua presença que lhe dá sorvetes de graça, satisfaz se só com seu sorriso divinal.
Assim vão passando os dias. Ela despertando o carinho e atenção dos seus colegas da escola, e até mesmo o desejo oculto dos professores. E a felicidade do velhinho sorveteiro que a vê como um anjo.
Passam semanas, e o velho sorveteiro não aparece pra vender seus sorvetes.
Lucinha gosta da presença do velhinho e sente a sua falta.
Um dia pela tarde ela ouve o som feito pela flauta do bondoso ancião. Mas quem está lá não é o bondoso e agradável velhinho. E sim um menino, um menino sorveteiro. Um menino que deve ser também jovem, com roupas simples e um velho boné surrado na cabeça. Ele passa em frente a casa de Lucinha e ala o chama. Ela pede um sorvete, e nesse momento eles ficam se observando, um olhando pro outro, bem no fundo dos olhos. Ela sente seu corpo tremer e o menino transpira todo o corpo. Algo eles viram e sentiram que tornou o clima enigmático e intrigante. Talvez a beleza dela tenha também encantado o menino e isso fosse recíproco por que ela também o sentiu algo estranho ao estar ao lado do menino. Naquele momento sentiu também vontade de fazer várias perguntas e o fez. Enfim ficou sabendo que o velhinho estava doente e que aquele menino era seu neto.
Durante os dias e as semanas seguintes o menino passava pela rua com seus sorvetes. E a relação de amizade foi se estabelecendo entre eles. Brincavam um pouco, mas brincavam escondidos. Pois ela não deveria entrar em contato com estranhos e ainda mais, pobres.
Então eles brincavam sempre às escondidas no belo jardim ou na piscina.
Numa destas tardes antes do menino ir embora ela impulsivamente lhe deu um fulgurante beijo na boca. Eles se abraçaram tão forte que parecia um só corpo, e digamos que começaram a namorar as escondidas. Eles estavam descobrindo novos sentimentos e sensações.
Numa destas tardes ela o chamou pra ir a sua casa a noite pois, ela tinha um presente pra ele. Ele retrucou alegando vários motivos. Mas ela conseguiu persuadi-lo embora ele quisesse muito estar cada vez mais junto dela.
Ela fez todos os preparativos para a noite, colocou uma roupa bem bonita e ficou a esperá-lo. Esperou até que começou a adormecer sentido o corpo cansado pela espera, decidiu ir ao seu quarto e dormiu. Acordou repentinamente assustada, e foi até o seu baú no armário, retirou algo que estava contido nele e retornou a sua cama.
Neste momento alguém entra na casa, vai a todos os cômodos. E ao abrir a porta do quarto onde ela repousa na penumbra, faz com que ela acorde assustada e diversos disparos são efetuados. Uma pessoa cai ao chão. Ela corre ao interruptor e acende a luz, ao olhar o corpo que está caído ao chão.
Ela chora desesperada.
O corpo que ali está é do menino sorveteiro.

Brunno Amâncio (Marília/SP 1999)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Vivo só.

Tantas pessoas ao meu redor. Mas me sinto só. E sinto além da solidão, a dor.

Dor que dá tapas em minha face, que chega a arder.

Sinto meu corpo desejoso de um afago carinhoso.

Desejo muitíssimo ouvir palavras carinhosas destinadas somente a mim.

Quero ver novamente aquele olhar, que me chama para perto de quem me olha.

Olhar que me admira pelo o que eu sou.

Sim, sou só e triste.

Sorrio, gargalho, brinco e suponho até que sou feliz. Todavia, sou só e isso me coage e me faz chorar.

Meu choro é um pedido, uma súplica, de quem diz: Por favor, não me mate! Eu ainda quero viver!

Vivo só, e de tão só que vivo, acho que sou até invisível, sou como água, insípida, inodora e incolor. Sou um ser, só.

De tão só que sou, acho que não me ouvem. Minha voz é um som fraco e sem sentido. Minhas palavras são emaranhados de letras, que formam palavras que ninguém entende.

Sou só.

Sou só. E sendo somente só, só desejo assim não mais ser.

Desejo não estar, desejo até, não mais existir.

Se não existir é não ser. E não ser é não ser só. Então desejo não ser. Pois só, não hei de ser mais.

Meu amor se transformou em solidão?

Solidão é uma boca enorme cheia de dentes, presas afiadíssimas, que abocanham gradativamente um pedaço do que um dia foi o meu coração.

E isso dói.

Sou só.

Brunno Amâncio Marcos

(Mais um mês triste de 2009)